A relação entre o humanismo e a prática da medicina é objeto de inúmeros estudos, pesquisas e artigos no Brasil e no mundo. São várias as linhas de pensamento. Há, contudo, algumas premissas unânimes.

Cito, por exemplo, a que atribui a desumanização às falhas do sistema e à falta de políticas de saúde consistentes. Destaco, sem medo de errar, que parte do problema também se deve à decadência do aparelho de ensino, à formação insuficiente, à desvalorização do papel do médico.

A turva visão social de alguns gestores é outro motivador da medicina se afastar cada vez mais de sua essência. Salta aos olhos nos dias de hoje o descompromisso com os cidadãos por parte de hospitais de grande porte da rede pública. Seja para manter privilégios de uma casta e/ou em virtude da incompetência administrativa, há instituições de renome cancelando cirurgias e consultas, garantindo apenas atendimento básico em urgência e emergência. Assim, mesmo com ressalvas.

Evidentemente existe a agravante do subfinanciamento da saúde. São de fato escassas as verbas da União, os estados também deixam a desejar nesse quesito e os municípios não colaboram. Em todos os níveis, mágicos da matemática maquiam contas para apresentar balanços em consonância com a Lei Complementar 141/2012, que estabelece a destinação de verbas mínima para a saúde.

Não podemos aceitar que gestores se apeguem à carência de recursos para justificar o que é fruto de incapacidade e, às vezes, de má fé. Se há pouco para gastar, que se gaste com responsabilidade e efetividade. Muitas contas não fecham, pois impera a cultura do desperdício. Fica a impressão de que não se pensa que alguém está pagando a conta.

Em hospitais com escolas médicas há mazelas ainda mais graves. Como os exames são “subsidiados”, joga-se dinheiro público no lixo. Uma investigação elementar mostrará que exames são solicitados sem controle e/ou critério. Um residente pede um, chega outro em turno diferente e pede mais um e assim segue. Uma auditoria facilmente encontrará o mesmo exame realizado três vezes em 24 horas, com iguais resultados.
A gestão hospitalar deve ser exercida por quadros qualificados e capacitados. Mas não é o que ocorre.

Comumente ouvimos notícias de hospitais tidos como de excelência com gestão extremamente precária; isso porque quem exerce o cargo é incompetente, não tem formação adequada e, em casos específicos, nem boa índole. Gestão é uma ciência tão relevante quanto à cardiologia, à pneumologia e assim por diante.

Em certas instituições, pessoas sem qualificação nem conhecimento na medicina ditam normas esdrúxulas, capitaneiam o Conselho Gestor sem base alguma. O resultado: desvio de verba, suplementações inadequadas, uso do serviço público para tratamento de doenças particulares, desvio de função… Em determinadas castas diretivas é fácil encontrar indivíduos com suplementações salariais indevidas, que trabalham em outros lugares quando deveriam honrar o que recebem do Estado, prestando serviço à população.

Outro problema recorrente em hospital de ensino é que não tem quem ensine. Os teoricamente responsáveis pela formação não aparecem ou marcam o ponto (às vezes a distância, pela facilidade tecnológica) e vão para outro emprego. Daí a solicitação de exames desnecessários, apenas por curiosidade ou insegurança, sem indicação clínica, já que o aluno não tem mestre.

Sou médico e professor à moda antiga. Paciente para mim tem nome. Cuido de doentes não de doenças. Resgatar a boa prática da medicina, o humanismo e a cumplicidade entre médico e pacientes são prioridades para qualquer um que entenda o sistema de saúde como um direito básico do homem, conforme consagrado no artigo 196 da Constituição Federal.

Deixo então registrada minha indignação, mas jamais perderei a esperança nem a flama para lutar por mudanças. Assim, faço um chamado a todos os médicos, profissionais de saúde e cidadãos a valorizar a qualidade de vida e a dignidade humana em cada momento e campo profissional, em particular na medicina.

Antonio Carlos Lopes, presidente da Sociedade Brasileira de Clínica Médica

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