Muitos médicos ignoram ou relativizam as crenças e a espiritualidade dos pacientes, segundo pesquisadora.


Segundo dados do Censo de 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), cerca de 92% da população brasileira declara ter alguma religião. A maior parte (64,6%) é católica, enquanto 22,2% dos brasileiros declararam-se evangélicos. As outras religiões somaram cerca de 5,2%, enquanto apenas 15 milhões (8%) afirmaram não ter religião.

Com imensa maioria de pessoas com algum credo, o brasileiro é um povo extremamente religioso. Assim sendo, é inevitável que a espiritualidade e as crenças que vão além do conhecimento científico se façam presentes com frequência no cotidiano das pessoas. Seja na maneira de se vestir, de pensar ou de lidar com as situações, o ponto de vista da religião sempre está influenciando o brasileiro.

No momento de lutar contra uma doença ou algum tipo de problema médico, a espiritualidade fica ainda mais gritante. Muitos apoiam-se na religião em momentos de grande dificuldade, como na batalha contra um mal da mente ou do corpo. Os profissionais da saúde, consequentemente, se veem obrigados a lidar com essas situações durante seus atendimentos.

20161026_religiao2-768x40364,6% da população brasileira se declara católica – Foto: Carlos Sodré / Ag. Pará via Fotos Públicas


Muitos médicos, porém, acabam por ignorar ou no mínimo relativizar as crenças e a espiritualidade dos pacientes. Para a pesquisadora Eveline Stella de Araújo, há um processo de “desconstrução da humanidade do sujeito” nas faculdades de medicina. Durante os mais de seis anos da graduação, os estudantes são “adestrados a não ter sentimentos” e obrigados a não terem nenhum tipo de relação emocional com os pacientes.

Para a doutora em Saúde Pública pela USP, esse processo de “deturpação” da essência humana dos médicos faz com que os atendimentos sejam superficiais. “(Após esse processo) você não pode esperar grande coisa, porque ele vai te tratar como objeto, um número de protocolo. Você é qualquer coisa, menos um ser humano na frente dele”, aponta.

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Eveline Stella de Araújo em palestra da FSP que discutiu o tema Espiritualidade e Saúde – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

Eveline ressalta, porém, que a humanização deve vir como elemento da formação do médico, como algo que seja intrínseco ao profissional, e não como um valor superficial e posterior. “Não dá para, agora, aos 42 minutos do segundo tempo, o pessoal de medicina começar com projetos de humanização na saúde, mas esses projetos terem um final monetário. Pôr florzinha na parede, ou bichinho no estetoscópio do pediatra. É uma humanização maquiada, e por isso ela é monetária.”

A humanização e a inserção da espiritualidade no tratamento médico, entretanto, não necessariamente precisam passar pela religiosidade. “A academia precisa melhorar bastante essa formação médica, no sentido de introduzir mais ciências sociais e humanas e abrir um espaço de relativização desse aprendizado para que esse sujeito continue sendo humano do primeiro ao sexto ano, e até o final da residência”, finaliza.

Fonte: Jornal da USP – Por Rafael Oliveira – Editorias: Atualidades

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